IV - A Questão da Neutralidade
Científica
A
questão que se coloca aqui é a seguinte: "pode um cientista ser
neutro?"; "é possível que toda a Ciência seja neutra, que não tenha
posição, que não 'tome partido' das coisas?". É sobre isso que se vai
debater e argumentar.
Aqui
entra muito o aspecto ideológico das Ciências,
pois ela vai se relacionar com questões que dizem respeito ao poder. Boa parte
das pessoas sabem a história do desenvolvimento da Bomba Atômica, feita pelos
EUA na década de 40. Sabia-se que a Alemanha também pesquisava a energia
nuclear e os soviéticos. Quem chegasse primeiro a Bomba, praticamente ganharia
a Guerra. Os maiores cientistas, entre eles Albert
Einstein, num primeiro momento foram chamados e contribuíram para a sua
fabricação.
Alguns
perceberam os aspectos altamente nocivos e perversos para a humanidade que a
Bomba traria. Defendiam as pesquisas nucleares sim, mas para a vida e não para
que se inventassem máquinas de destruição de milhares de pessoas. Assim, muitos
deles se afastaram e passaram a criticar o projeto Manhattan, como era chamado.
A
pergunta então que se faz é clássica: os cientistas, ao realizarem as suas
pesquisas, são neutros? Podem eles trazer para seus trabalhos suas impressões,
suas visões de mundo ou devem ficar neutros na realização das suas pesquisas? é
possível ficar neutro, não ter opinião sobre nenhum aspecto?.
Aqui
é preciso fazer uma diferença entre pesquisa
básica ou pura e as pesquisas aplicadas. As do primeiro
tipo, são as primárias, as que procuram desenvolver produtos ou mesmo buscar um
saber original, inédito. As chamadas pesquisas aplicadas são as decorrentes das
puras, ou seja, tratam da aplicação, da derivação, das conseqüências dos
resultados obtidos na pesquisa básica.
As
pesquisas puras ou básicas geram um saber
e a aplicação desse saber gera
conseqüentemente um poder para quem
detém os conhecimentos gerados anteriormente.
A
revista da USP publicou um artigo onde trata de aspectos que abordam os
problemas aqui levantados. Debate o papel da ética nas pesquisas básicas. Algumas das suas passagens ou citações
de outros autores ajudam a compreensão do que aqui se quer tratar.
Os
autores do artigo são defensores da posição de que não há uma separação muito
acentuada entre as pesquisas puras e as aplicadas e os cientistas devem ter um
firme posicionamento quanto ao produto final das suas pesquisas tanto na
primeira fase, como nas derivações e conseqüências sobre o seu trabalho. Assim
dizem: "...nossa posição é a de que a Ciência pura e a aplicada podem se
encontrar de tal maneira imbricada, que cabe também ao cientista envolvido em
pesquisa básica refletir sobre as implicações éticas de seu trabalho"[1].
Sobre
a questão de que se os cientistas pode despir-se de seus valores no processo de
produção de conhecimento e realização das suas pesquisas é assim respondido
pelos dois cientistas: "... a tese de uma Ciência neutra equivale a
condição idealizada em que o conhecimento pode ser produzido sem qualquer
determinação ou restrição originários do contexto social. O cientista é então
negado como ser social e a Ciência perde seu caráter de processo social... A neutralidade da Ciência
se opõe a um cenário em que normas que definem o que é legítimo, correto e
necessário estudar decorrem não apenas da interioridade da Ciência mas também
de valores que provêm das redes em que a própria Ciência esta inserida"[2].
Assim
os autores concluem que "...a atividade científica não pode ser isolada
dos compromissos sociais e políticos que são parte da existência do
cientista... O cientista ao receber a sua educação básica é submetido à
influência de uma ideologia social dominante. Não há contexto de produção de
conhecimento livre de influências ideológicas" (ibidem pág. 14). Mais adiante afirmam: "...O cientista não
pode despir-se de seus próprios valores, logo, de seus referenciais
ideológicos, no ato de produção do conhecimento: eles o acompanham da seleção
dos problemas que despertam seu interesse à interpretação dos resultados por ele
obtidos... A proposição de uma Ciência pura, livre de compromissos éticos, cria
condições para uma alienação do pesquisador frente aos determinantes políticos
e sociais da atividade científica... Fazer Ciência é ser um ator social
engajado, queira ou não queira, em atividade política" (ibidem, pág. 15).
Até
em última instância se deve perguntar: os cientistas devem ser engajados na
luta por uma sociedade mais justa, mais igualitária, onde o produto de seu
trabalho como cientistas devam refletir uma melhoria generalizada na vida da
maioria das pessoas ou apenas uma pequena minoria deve ter acesso aos
resultados de suas pesquisa, os que puderem pagar por isso?. A vida mostra que
é preciso e é fundamental que os cientistas se engajem na luta por essa
sociedade melhor, como assim o fizeram, entre tantos outros, Albert Einstein, Linus Pauling etc.
As
conclusões que merecem ser transcritas são: "...Uma Ciência crítica não
nega o valor do conhecimento científico, mas ao mesmo tempo não vê neste uma
realidade alienada da influência do sujeito, de seus compromissos ideológicos e
da inserção da Ciência na rede de relações sociais... A idéia de um conceito de
objetividade que elimina os valores subjetivos da prática científica se mostra
limitada simplesmente porque os dados objetivos só adquirem significado frente
a uma posição interpretativa do pesquisador...As considerações éticas de um
pesquisador dependem da concepção que ele tem sobre o significado social de seu
trabalho, de modo que elas não podem ser dissociadas de seus compromissos
ideológicos e políticos" (ibidem,
pág. 19).
Pode-se
dizer que a velha e surrada imagem clássica de um cientista em seu laboratório,
como um lugar separado da sociedade, imune das conturbações da vida diária cujo
ser, o cientista, seria destituído de emoção e sua função seria apenas estudar
e não sentir, já não existe mais, está fora de moda.
O
Professor Dr. Pedro Demo, da
Universidade de Brasília, trata longamente da questão da neutralidade em seu
livro Metodologia Científica em Ciências
Sociais[3]. Analisa as
várias correntes, as que defendem uma Ciência neutra e os que acham isso
impossível.
Aborda
Max Weber, importante sociólogo
alemão, que trata "daquilo que é" do "daquilo que deveria
ser". Abordando a posição hermenêutica (interpretação dos sentidos das
palavras), o professor afirma: "...Não há cientista fora de uma tradição
histórica; não há sujeito cognoscente fora de uma constelação social. A
objetividade é um resultado do sujeito, é um tipo de construção; não é uma propriedade
do objeto, porque, ainda que fosse, para ser reconhecida teria de ser captada,
ou seja, pressuporia o processo de captação" (ibidem, pág. 97).
Na
seqüência da descrição dessa corrente, fala dos "hermenêuticos de posição
política" e assim os descreve: "...a metodologia não deve apenas
propor instrumentais de captação da realidade, mas sobretudo de
transformação... Trata-se de ver na captação uma finalidade prática imediata...
O juízo de valor é a própria razão de ser do conhecimento... Esta posição esta
na base de todos os cientistas sociais que acham ser dever das Ciências estar a
serviço do homem... O engajamento é o móvel do conhecimento" (ibidem pág. 99-100).
Estas
posições últimas foram muito defendidas por Karl
Marx no século passado, em especial quando este rebate algumas obras
filosóficas publicadas na época onde afirmava que "mais do que interpretar
o mundo, cabiam aos filósofos transformá-los". é uma posição bastante
clara de que não só as Ciências não são neutras, como elas tem um posicionamento
e um conteúdo de classe, ou seja, elas mantém ligações com as classes sociais.
Pode-se
ficar com a opinião geral e conclusão desta aula, sem que se queira encerrar o
debate, de que é fundamental que os cientistas e pesquisadores tenham suas
posições e visões de mundo. De fato estas, se possível, não devem ser a única
forma destes verem as coisas. Devem fazer um esforço de ampliar a sua visão de
mundo, procurar conhecer outras correntes, outras teorias, confrontá-las com as
suas etc.
Deve-se
evitar o dogmatismo e o sectarismo, que são prejudiciais à Ciência. Mas deve-se
incentivar sim que os cientistas e pesquisadores tenham participação política
sim, e que eles possam contribuir para a construção de um mundo melhor, a
partir do fruto de suas pesquisas de suas descobertas, que estas possam estar a
serviço do bem estar da humanidade. Esta parece ser uma posição razoável.
[1]
MEYER, Diogo & EL-HANI, Charbel Niño, "O
Papel da Ética na Pesquisa Básica, in Revista
da USP, São Paulo, número 24, fevereiro de 1995, pág. 10-19.
[2] LATOUR, B., "We have never been modern",
Cambridge, Harvard University Press, 1993, in Revista da USP, artigo citado, pág. 13.
[3]
São Paulo, Editora Atlas, Capítulo 5, "Neutralidade
Científica", pág. 83-101.
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