quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

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IV - A Questão da Neutralidade Científica

                 A questão que se coloca aqui é a seguinte: "pode um cientista ser neutro?"; "é possível que toda a Ciência seja neutra, que não tenha posição, que não 'tome partido' das coisas?". É sobre isso que se vai debater e argumentar.

                 Aqui entra muito o aspecto ideológico das Ciências, pois ela vai se relacionar com questões que dizem respeito ao poder. Boa parte das pessoas sabem a história do desenvolvimento da Bomba Atômica, feita pelos EUA na década de 40. Sabia-se que a Alemanha também pesquisava a energia nuclear e os soviéticos. Quem chegasse primeiro a Bomba, praticamente ganharia a Guerra. Os maiores cientistas, entre eles Albert Einstein, num primeiro momento foram chamados e contribuíram para a sua fabricação.

                 Alguns perceberam os aspectos altamente nocivos e perversos para a humanidade que a Bomba traria. Defendiam as pesquisas nucleares sim, mas para a vida e não para que se inventassem máquinas de destruição de milhares de pessoas. Assim, muitos deles se afastaram e passaram a criticar o projeto Manhattan, como era chamado.

                 A pergunta então que se faz é clássica: os cientistas, ao realizarem as suas pesquisas, são neutros? Podem eles trazer para seus trabalhos suas impressões, suas visões de mundo ou devem ficar neutros na realização das suas pesquisas? é possível ficar neutro, não ter opinião sobre nenhum aspecto?.

                 Aqui é preciso fazer uma diferença entre pesquisa básica ou pura e as pesquisas aplicadas. As do primeiro tipo, são as primárias, as que procuram desenvolver produtos ou mesmo buscar um saber original, inédito. As chamadas pesquisas aplicadas são as decorrentes das puras, ou seja, tratam da aplicação, da derivação, das conseqüências dos resultados obtidos na pesquisa básica.

                 As pesquisas puras ou básicas geram um saber e a aplicação desse saber gera conseqüentemente um poder para quem detém os conhecimentos gerados anteriormente.

                 A revista da USP publicou um artigo onde trata de aspectos que abordam os problemas aqui levantados. Debate o papel da ética nas pesquisas básicas. Algumas das suas passagens ou citações de outros autores ajudam a compreensão do que aqui se quer tratar.

                 Os autores do artigo são defensores da posição de que não há uma separação muito acentuada entre as pesquisas puras e as aplicadas e os cientistas devem ter um firme posicionamento quanto ao produto final das suas pesquisas tanto na primeira fase, como nas derivações e conseqüências sobre o seu trabalho. Assim dizem: "...nossa posição é a de que a Ciência pura e a aplicada podem se encontrar de tal maneira imbricada, que cabe também ao cientista envolvido em pesquisa básica refletir sobre as implicações éticas de seu trabalho"[1].

                 Sobre a questão de que se os cientistas pode despir-se de seus valores no processo de produção de conhecimento e realização das suas pesquisas é assim respondido pelos dois cientistas: "... a tese de uma Ciência neutra equivale a condição idealizada em que o conhecimento pode ser produzido sem qualquer determinação ou restrição originários do contexto social. O cientista é então negado como ser social e a Ciência perde seu caráter de  processo social... A neutralidade da Ciência se opõe a um cenário em que normas que definem o que é legítimo, correto e necessário estudar decorrem não apenas da interioridade da Ciência mas também de valores que provêm das redes em que a própria Ciência esta inserida"[2].

                 Assim os autores concluem que "...a atividade científica não pode ser isolada dos compromissos sociais e políticos que são parte da existência do cientista... O cientista ao receber a sua educação básica é submetido à influência de uma ideologia social dominante. Não há contexto de produção de conhecimento livre de influências ideológicas" (ibidem pág. 14). Mais adiante afirmam: "...O cientista não pode despir-se de seus próprios valores, logo, de seus referenciais ideológicos, no ato de produção do conhecimento: eles o acompanham da seleção dos problemas que despertam seu interesse à interpretação dos resultados por ele obtidos... A proposição de uma Ciência pura, livre de compromissos éticos, cria condições para uma alienação do pesquisador frente aos determinantes políticos e sociais da atividade científica... Fazer Ciência é ser um ator social engajado, queira ou não queira, em atividade política" (ibidem, pág. 15).

                 Até em última instância se deve perguntar: os cientistas devem ser engajados na luta por uma sociedade mais justa, mais igualitária, onde o produto de seu trabalho como cientistas devam refletir uma melhoria generalizada na vida da maioria das pessoas ou apenas uma pequena minoria deve ter acesso aos resultados de suas pesquisa, os que puderem pagar por isso?. A vida mostra que é preciso e é fundamental que os cientistas se engajem na luta por essa sociedade melhor, como assim o fizeram, entre tantos outros, Albert Einstein, Linus Pauling etc.

                 As conclusões que merecem ser transcritas são: "...Uma Ciência crítica não nega o valor do conhecimento científico, mas ao mesmo tempo não vê neste uma realidade alienada da influência do sujeito, de seus compromissos ideológicos e da inserção da Ciência na rede de relações sociais... A idéia de um conceito de objetividade que elimina os valores subjetivos da prática científica se mostra limitada simplesmente porque os dados objetivos só adquirem significado frente a uma posição interpretativa do pesquisador...As considerações éticas de um pesquisador dependem da concepção que ele tem sobre o significado social de seu trabalho, de modo que elas não podem ser dissociadas de seus compromissos ideológicos e políticos" (ibidem, pág. 19).

                 Pode-se dizer que a velha e surrada imagem clássica de um cientista em seu laboratório, como um lugar separado da sociedade, imune das conturbações da vida diária cujo ser, o cientista, seria destituído de emoção e sua função seria apenas estudar e não sentir, já não existe mais, está fora de moda.

                 O Professor Dr. Pedro Demo, da Universidade de Brasília, trata longamente da questão da neutralidade em seu livro Metodologia Científica em Ciências Sociais[3]. Analisa as várias correntes, as que defendem uma Ciência neutra e os que acham isso impossível.

                 Aborda Max Weber, importante sociólogo alemão, que trata "daquilo que é" do "daquilo que deveria ser". Abordando a posição hermenêutica (interpretação dos sentidos das palavras), o professor afirma: "...Não há cientista fora de uma tradição histórica; não há sujeito cognoscente fora de uma constelação social. A objetividade é um resultado do sujeito, é um tipo de construção; não é uma propriedade do objeto, porque, ainda que fosse, para ser reconhecida teria de ser captada, ou seja, pressuporia o processo de captação" (ibidem, pág. 97).

                 Na seqüência da descrição dessa corrente, fala dos "hermenêuticos de posição política" e assim os descreve: "...a metodologia não deve apenas propor instrumentais de captação da realidade, mas sobretudo de transformação... Trata-se de ver na captação uma finalidade prática imediata... O juízo de valor é a própria razão de ser do conhecimento... Esta posição esta na base de todos os cientistas sociais que acham ser dever das Ciências estar a serviço do homem... O engajamento é o móvel do conhecimento" (ibidem pág. 99-100).

                 Estas posições últimas foram muito defendidas por Karl Marx no século passado, em especial quando este rebate algumas obras filosóficas publicadas na época onde afirmava que "mais do que interpretar o mundo, cabiam aos filósofos transformá-los". é uma posição bastante clara de que não só as Ciências não são neutras, como elas tem um posicionamento e um conteúdo de classe, ou seja, elas mantém ligações com as classes sociais.

                 Pode-se ficar com a opinião geral e conclusão desta aula, sem que se queira encerrar o debate, de que é fundamental que os cientistas e pesquisadores tenham suas posições e visões de mundo. De fato estas, se possível, não devem ser a única forma destes verem as coisas. Devem fazer um esforço de ampliar a sua visão de mundo, procurar conhecer outras correntes, outras teorias, confrontá-las com as suas etc.

                 Deve-se evitar o dogmatismo e o sectarismo, que são prejudiciais à Ciência. Mas deve-se incentivar sim que os cientistas e pesquisadores tenham participação política sim, e que eles possam contribuir para a construção de um mundo melhor, a partir do fruto de suas pesquisas de suas descobertas, que estas possam estar a serviço do bem estar da humanidade. Esta parece ser uma posição razoável.



[1] MEYER, Diogo & EL-HANI, Charbel Niño, "O Papel da Ética na Pesquisa Básica, in Revista da USP, São Paulo, número 24, fevereiro de 1995, pág. 10-19.
[2] LATOUR, B., "We have never been modern", Cambridge, Harvard University Press, 1993, in Revista da USP, artigo citado, pág. 13.

[3] São Paulo, Editora Atlas, Capítulo 5, "Neutralidade Científica", pág. 83-101.

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